Leiria despede-se de Joaquim Granger, figura maior do desporto português

O desporto português despede-se de Joaquim Pedro Granger, natural de Maceira-Lis, concelho de Leiria, falecido aos 97 anos. Pioneiro da ginástica artística nacional, atleta olímpico e professor, foi uma das figuras que ajudou a estruturar a modalidade em Portugal e a projetá-la além-fronteiras.

Nascido a 31 de maio de 1928, cresceu numa infância marcada pela liberdade e pelo contacto próximo com o movimento, num ambiente rural onde o desporto surgia de forma espontânea no quotidiano. Foi o pai, engenheiro químico e também ligado ao desporto equestre, quem teve um papel determinante no seu percurso, levando-o a descobrir novas práticas e, sobretudo, a assistir a uma exibição no Ginásio Clube, em Lisboa. Esse momento revelou-se decisivo na forma como passou a olhar para a ginástica.

Antes de se fixar na modalidade, passou por diferentes experiências desportivas acompanhando a família. Essa ligação inicial ao movimento prolongou-se mais tarde em São Martinho do Porto, onde recordava os tempos em que o pai adquiriu um barco e as férias eram passadas junto ao mar, primeiro em embarcações a remos e mais tarde também em prática de remo, disciplina da qual guardava ainda algumas memórias competitivas.

A mudança para Lisboa, em 1946, marcou o início da sua ligação formal à ginástica artística. Já com 18 anos, começou a trabalhar nos aparelhos numa fase em que a modalidade em Portugal ainda dava os primeiros passos. Recordava esse período como um tempo de construção quase artesanal, em que tudo era novo e em que a aprendizagem era feita com poucos meios.

A sua determinação levou-o rapidamente a integrar o grupo que representaria Portugal nos Jogos Olímpicos de Helsínquia, em 1952, numa viagem de cerca de dez dias a bordo do navio Serpa Pinto. Entre episódios de improviso e espírito de entreajuda, recordava com naturalidade a forma como a comitiva se adaptava às circunstâncias da época, num contexto muito distante do desporto moderno.

A participação olímpica ficou também marcada por um episódio pessoal. Uma forte gripe colocou em risco a sua presença na competição, chegando a impedir a participação no desfile de abertura. Ainda assim, acabou por competir poucos dias depois, em condições físicas limitadas, numa demonstração de resistência que o próprio descrevia com simplicidade, sem dramatizar o esforço.

Ao longo da carreira, manteve ligação ao ensino e à competição, participando nas primeiras edições dos Campeonatos da Europa de Ginástica e consolidando o seu papel como uma das referências da modalidade em Portugal. Em paralelo, desenvolveu trabalho como professor e treinador em várias instituições, contribuindo para a formação de atletas e para a evolução técnica da ginástica nacional.

A sua relação com o desporto ultrapassou sempre a ginástica. Praticou várias modalidades ao longo da vida e manteve uma ligação constante ao movimento, recusando a inatividade. “Não consigo estar parado. Acho que é isto que me dá vida”, afirmava, numa síntese da forma como sempre viveu o desporto e o quotidiano.

Em diferentes momentos da sua vida, sublinhava também o sentido de missão que atribuía à sua geração no desporto português, lembrando que esteve entre os primeiros a levar a ginástica nacional ao palco olímpico, numa fase em que tudo estava ainda por construir.

À data do seu falecimento, Joaquim Granger era reconhecido como o decano dos atletas olímpicos portugueses, símbolo de uma geração pioneira que ajudou a lançar as bases da ginástica artística em Portugal.

Foto: Federação de Ginástica de Portugal

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