No Auditório do Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa viveu-se, ontem, dia 4 de fevereiro de 2026, um encontro excecional e de grande significado. Mais de uma centena de representantes do movimento associativo do concelho de Leiria reuniu-se com o presidente do Município, Gonçalo Lopes, e com o vereador do Desporto, Carlos Palheira, para olhar de frente uma realidade sem precedentes.
A tempestade Kristin deixou um rasto profundo. Praticamente todas as instalações desportivas do concelho apresentam estragos. Campos impraticáveis, pavilhões condicionados, treinos suspensos, rotinas quebradas. O desporto local sofreu um abalo sério e o regresso à normalidade não será imediato.
Ainda assim, a prioridade definida foi clara: devolver, com urgência, condições mínimas à prática. Mesmo longe do cenário ideal, será essencial recuperar relvados, limpar espaços e garantir segurança básica para que a atividade possa regressar, ainda que de forma condicionada. Porque, neste momento, mais do que a perfeição das infraestruturas, importa voltar a abrir portas.
E foi precisamente essa vontade coletiva que marcou o encontro. Entre intervenções, ficou evidente um espírito positivo e resiliente. Dirigentes e clubes mostraram disponibilidade para recomeçar com o que existir: uma baliza torta, menos um poste de iluminação, horários apertados ou campos ainda longe do ideal.
Desde que a segurança não seja colocada em causa, a prioridade é voltar ao terreno. Há a consciência de que o Município estará ao lado do movimento associativo para resolver, com rapidez, os problemas mais imediatos e permitir que a atividade retome o seu ritmo possível.
“Este é um momento que nunca se passou em Portugal”, começou por sublinhar Carlos Palheira, sem suavizar o cenário. “Vai exigir tempo, até porque ninguém vai pensar num pavilhão quando lhe chove dentro de casa. Tem de haver prioridades. A mesma grua que pode reparar a cobertura de um pavilhão é a que pode colocar o telhado na casa de alguém.”
Ainda assim, o vereador do Desporto deixou uma convicção firme, sustentada no conhecimento profundo do tecido associativo local. “Conheço o nosso movimento associativo e sei que vamos sair mais fortes desta situação. Podem contar com o nosso apoio, mas nós também temos de ser ajudados.”
A reunião não foi um espaço de lamento, mas de construção coletiva. Entre dirigentes, treinadores e responsáveis associativos, o discurso convergiu para a mesma ideia: partilhar, acolher, ajustar horários, abrir portas. Ser solução, mesmo quando o contexto empurra para a dificuldade. A recuperação rápida dos espaços, ainda que provisória, surgiu como um passo necessário para evitar que semanas sem atividade se transformem em meses de ausência.
Gonçalo Lopes reforçou essa linha de pensamento, colocando a juventude no centro das prioridades. “A aposta na nossa juventude não pode ficar comprometida. Sabemos a importância que o desporto tem enquanto formador de boas pessoas.” Para o presidente do Município, a urgência é clara: “O mais importante é voltar a pôr esta juventude a praticar atividade física. Temos de ser rápidos.”
Essa rapidez implicará sacrifícios e adaptações. “Vamos ter de partilhar espaços e ser solidários. Vamos ficar apertados, vamos usar o que houver. Não será perfeito”, admitiu. Mas deixou uma certeza que ecoou na sala. “Em Leiria não se baixam os braços.”
Entre paredes marcadas pelo peso do momento, ficou uma imagem forte: um movimento associativo ferido nas suas condições, mas inteiro nos seus valores. Solidário, disponível e consciente de que só em conjunto será possível proteger o essencial — o direito das crianças e jovens a continuarem a praticar desporto, mesmo quando tudo à volta parece ruir.