A lama ainda marca o chão, as paredes e a memória recente de quem ali treina todos os dias. Esta terça-feira, o Centro Nacional de Lançamentos voltou a ter movimento, não para receber atletas, mas para iniciar uma operação de limpeza que juntou quase duas centenas de voluntários, depois da maior inundação de que há registo naquele espaço dedicado ao atletismo.
A infraestrutura municipal, gerida pela Juventude Vidigalense, é muito mais do que um recinto desportivo. É um lugar fundacional do atletismo em Leiria. Ali cresceram duas atletas olímpicas, Irina Rodrigues (lançamento do disco) e Vânia Silva (lançamento do martelo). Ali se prepara, desde 2017, com o treinador Paulo Reis, Auriol Dongmo (lançamento do peso), que conquistou os títulos europeu e mundial, em 2022.
Desta vez, porém, o cenário era outro.
“Numa perspetiva realista é impossível o cálculo dos danos. É intangível e não conseguimos perceber o que se pode aproveitar ou não. Estamos a tentar perceber o que é recuperável a partir do que vamos encontrando. É o primeiro dia em que conseguimos entrar, 20 dias depois, após sucessivas inundações”, afirmou Nuno Cordeiro, presidente da Juventude Vidigalense, no meio de um espaço ainda marcado pela lama e pelo cheiro persistente da água parada.
O dirigente recorda que o material estava em período de defeso quando a cheia surpreendeu o clube. “Tentámos subir o material, subir prateleiras, não resultou. O nível da água e a continuidade do nível elevado fizeram com que material de ginásio, pesadíssimo, fosse encontrado 20 metros do outro lado do edifício. Sendo certo que a grande maioria dos danos são irreversíveis.”
A água atingiu uma linha de 1,32 metros. Um número que, por si só, ajuda a perceber a dimensão do que ali aconteceu. “Nunca tivemos uma inundação deste género. A água ultrapassou um limite que ninguém conseguia prever”, sublinhou.
Os estragos não se concentram num único ponto. São, nas palavras de Nuno Cordeiro, “sistémicos”: atingem o espaço exterior dedicado ao atletismo, os setores de lançamentos, a pista de tartan, o edifício de apoio e as arrecadações onde se guardavam os engenhos. À medida que os voluntários retiram destroços e lama, vai-se revelando uma realidade mais dura: há danos que não se resolvem com limpeza. Terão de ser reparados.
Apesar disso, a atividade competitiva não parou. “A competição deslocou-se para concelhos que não tinham sido afetados, a tempo inteiro ou com viagens diárias. Foram três semanas de improviso. A parte da competição não podia parar.” Já no que toca à formação e aos jovens atletas, a interrupção foi total. O regresso está agora a ser preparado em diferentes espaços da cidade. “Qualquer centímetro quadrado disponível será aproveitado”, garantiu.
Nuno Cordeiro deixa ainda uma palavra de agradecimento à Câmara Municipal de Leiria, que acompanhou de perto a situação. “Inteirou-se do que estava a acontecer, não só para saber o que se passava, mas tentando perceber como podia ajudar a tornar a atividade possível de continuar.”
Mas se houve algo que superou expectativas foi o sentido de comunidade, com a presença de atletas, treinadores, dirigentes, famílias, amigos ou simples anónimos que quiseram ajudar. “Superou as nossas expectativas, com quase 200 voluntários”, refere. Entre diferentes forças vivas do concelho, soluções foram surgindo no imediato, numa resposta coletiva que procurou devolver viabilidade às áreas específicas do atletismo.
O Centro Nacional de Lançamentos carrega décadas de histórias, de esforço silencioso e de conquistas construídas longe dos holofotes. Esta terça-feira não houve medalhas nem marcas pessoais. Houve pás, baldes e mãos sujas de lama. E, talvez por isso mesmo, houve também a reafirmação de que aquele espaço continua a ser um ponto de encontro essencial do atletismo de Leiria.