Uma ode ao emigrante sob a forma de jogo de petanca

A prova já vai em fase avançada, mas um senhor pequenino, enérgico e bem disposto, a quem não damos mais do que uns sessenta e poucos anos, continua em prova.

Na verdade, continuava, porque o jogo a que assistimos foi mesmo o que ditou a eliminação de Adelino Bento do Torneio Nacional de Petanca da Associação da Igreja Velha, que decorreu no passado fim de semana, nas Colmeias. “Perdi, jogaram melhor do que eu, não me chateio.”

Continuava de sorriso na cara, feliz por estar ali, num local tão aprazível como é o Troncão Parque, com os amigos e pouco preocupado por perder. “É o convívio que interessa! Gosto de ganhar, mas se perder é igual. O que me dá um gozo imenso é que os meus amigos são muito mais novos do que eu.”

Calma lá! Muito mais novos? Metem-se comigo. “Sabe que idade tem este rapaz? Adivinhe lá!” Apontamos para cima. “Setenta?” Não! “Setenta e cinco?” Longe!

Cansam-se do jogo e da nossa falta de argúcia. Estamos a falar com o mais velho dos jogadores do torneio. “Quem é que faz o que este homem faz com 91 anos?”

Pois, parece impossível, de facto. Move-se com a agilidade de um jovem e tem a pontaria afinada. Desafiamo-lo com um “ganhou a uns rapazes com idade para serem seus netos…”. “Têm idade é para ser meus bisnetos”, responde, orgulhoso.

Curiosamente, apesar de a petanca ser uma modalidade originária de França – aprendemos com a Sandrine Santo que da zona de Marselha – e de Adelino Bento ter estado emigrado nesse país durante quase três décadas, foi quando regressou a Vermoil, “há 31 ou 32 anos”, que começou a jogar com os amigos ex-emigrantes, como ele. Como tem jeito e, lá está, gosta de confraternização, foi continuando.

Sombra e água fresca

O Troncão Parque, que há 13 anos começou com uma barraquita e um campo de petanca para os emigrantes que no Verão traziam umas bolas, cresceu imenso. Está cheio. O calor extremo convida a uma mini. Além de 160 jogadores, algumas mulheres, “porque não há espaço para mais”, muitas famílias aproveitam as zonas verdes e as sombras para descansar e matar saudades.

Nas conversas, o francês mistura-se com o português. Nesta região todos foram, são ou têm familiares emigrantes. Agora que o estio chegou, não querem perder um dos acontecimentos do ano.

Adelino, que era carpinteiro e fazia autocaravanas em França, conta-nos o segredo para uma longevidade tão saudável. “É trabalhar. Digo-lhe uma coisa: hoje, quando acabo de almoçar e passo ao lado do sofá, dá-me vontade de me sentar, mas não vou. Vou cortar madeira, fazer uma bricolage, qualquer coisa, mas não vou para lá.”

CR7 da petanca

Continuamos à conversa. “Sócio de 11 clubes com quotas em dia”, Adelino Bento tem uma autocaravana onde leva a esposa a passear “para todo o lado”, mas à petanca vem sozinho. “A minha senhora não vem porque não quer.”

Quem não se pode queixar da falta de apoio familiar é Armando Santo, do Casal da Quinta, pois tem a esposa Ermelinda e a filha Sandrine a assistir ao torneio.

Admite estar frustrado por ter sido afastado da competição. “Joguei bem e joguei mal. Ganhei três e perdi dois, com os profissionais. Joguei com o Mustafá, o CR7 da petanca. Devia ter perdido mais para poder jogar mais, nos outro anos levei uma taça e ainda dez euros para casa”, conta.

Começou a jogar em França, nos arredores de Paris, após a reforma. “Tinha de se entreter”, defende a esposa. O gosto ficou e agora que regressou a Portugal começou a jogar com os amigos de Bidoeira de Cima.

As partidas prosseguem. O pessoal acompanha e vai comentando. Fita métrica presa ao cinto, íman elevador de bolas, contador preso às sapatilhas, bolsas para guardar as bolas para todos os gostos, o manancial de material exibido é impressionante.

Adelino Bento refresca-se após o jogo e volta a falar-nos da esposa. “Aproveita os dias em que não estou para comer aquilo de que eu não gosto. Ontem fez uma salada de pepino e broa misturada que eu detesto e hoje foi costeleta de carneiro, que também não vou à bola com aquilo.”

Ele, no Troncão Parque, estava nas suas sete quintas. Comeu frango, leitão e uma “sopa da pedra que foi uma categoria”. “É um espetáculo vir aqui”, diz. E para o ano há mais? “Espero que sim!”

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